A mãe imperfeita é a melhor mãe do Mundo

(Última atualização em: 4 Janeiro, 2020)

Nascemos na década de 80.

Somos a geração que comeu Cerelac, Nestum com mel e papas de farinha Maizena.

Somos a geração que levava cem escudos para a escola primária e comprava um Bollycao no intervalo da manhã.

Metíamos manteiga nas bolachas Maria e Nesquick no leite. As nossas festas de anos tinham sandes de fiambre e queijo mas também tinham salame e tortas Dancake.

A nossa geração bebia Coca-Cola quando tinha diarreia mas antes as nossas mães “tiravam-lhe o gás”.

Comíamos batatas fritas da Matutano e fazíamos colecção de pega-monstros e tazos.

Apesar disto somos também uma geração que aprendeu a comer sopa a todas as refeições e peixe cozido quando as nossas mães assim o entendiam.

Não havia comida especial para nós e quando perguntávamos o que era o almoço recebíamos como resposta um “casquinhas de tremoço” ou um “Linguas de perguntador”.

Comíamos fruta como sobremesa porque nem nos passava pela cabeça não o fazer.

Somos a geração que brincava na rua até à hora de jantar e, no Verão, ainda podíamos brincar depois dessa hora.

Andávamos de bicicleta e íamos a pé para a escola, sozinhos ou com amigos. Até para mudar de canal na televisão tínhamos que nos levantar.

Somos a geração que ligava para os discos pedidos, a geração que não dissocia a Ana Malhoa do Buereré, a geração que comprava cassetes dos Onda Choc nos expositores dos cafés.

Fomos as princesas da Disney e os Power Rangers.

Ainda somos do tempo em que os carros não tinham cinto de segurança nos bancos traseiros nem ar condicionado.

Jogámos Tetris e tivémos Walkmans e Mega Drives. Tomámos comprimidos de flúor e bebemos óleo de fígado de bacalhau.

A nossa geração comeu açúcar que se fartou, viu desenhos animados cheios de lutas e outros em que as meninas eram princesas à espera do príncipe encantado.

E nenhum mal veio daí.

Porque a nossa geração fez tudo com conta, peso e medida.

A nossa geração teve mães que faziam o que podiam da melhor forma que sabiam, que seguiam o coração e não viam um papão em cada esquina.

As nossas mães eram as mães que nos deixavam lamber a massa crua dos bolos mas que diziam que comer o bolo quente nos dava a volta à barriga.

Podiam ser incoerentes, é certo, mas tinham filhos felizes.

E nós tivémos mães imperfeitas mas que, na sua imperfeição, souberam dosear tudo e encontraram o equilíbrio.

Saibamos nós ser hoje tão imperfeitas como elas foram um dia. Os nossos filhos ficarão gratos. Tal como nós somos gratos.

Que maravilhosas foram as mães dos filhos de 80.

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