F***… em criança roubavam-me as romãs… agora levam-me a carteira?

(Última atualização em: 16 Março, 2018)

Este artigo faz parte da autobiografia do Pedro Silva-Santos.

Estávamos no ano de 1989…

… eu tinha 11 anos e vivia com a minha mãe e a minha irmã (que tinha 9 anos nessa altura).

O meu pai tinha emigrado pela primeira vez, durante vários meses, para a ilha de Jersey (uma dependência da Coroa Britânica que não faz parte do Reino Unido). Trabalhava arduamente num restaurante para tentar juntar algum dinheiro que nos permitisse ter o que ele chamava de “uma vida melhor“. Nessa altura, a moeda inglesa (a libra) ainda era uma moeda muito forte, principalmente comparada com a moeda que existia em Portugal (o escudo, moeda que tínhamos antes do euro).

Como tinha apenas a minha mãe para me “controlar”, depois da escola, aos fins de semana e durante as férias passava o tempo com os meus amigos do bairro a roubar fruta na quinta que existia mesmo em frente aos prédios onde vivíamos.

Nunca me faltou fruta em casa mas aquelas romãs acabadinhas de apanhar da árvore, enquanto fugíamos dos cavalos e dos cães da quinta, tinham outro sabor!

Quando eu e os meus amigos achávamos que tínhamos conseguido enganar o dono da quinta, por vezes acabávamos por ficar sem as romãs porque os ciganos da nossa idade faziam-nos uma espera à entrada do bairro.

Apesar de vivermos todos no mesmo bairro eles insistiam em correr atrás de nós e “roubar-nos” as romãs, só para mostrar quem mandava por ali…

Nessa altura ainda não se falava em bullying mas acredito que perseguir e atirar pedras a crianças com o objetivo de lhes roubar algumas romãs, certamente seria considerado um tipo de bullying bastante condenável… e até doentio… mesmo tendo em consideração que as romãs era provenientes de um roubo que tínhamos acabado de fazer.

Lembro-me de pensar:
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“Raios partam os ciganos… vou voltar à quinta para roubar mais umas romãs mas… vou comê-las ali, em cima do castanheiro.“

Porém, nem tudo era mau. Apesar de nos roubarem as romãs, vivíamos no mesmo bairro e por isso éramos todos “família”… e toda a gente sabe como os ciganos têm grande respeito pela família (viva e já falecida) e pela hierarquia dentro da sua comunidade.

Os ciganos sempre me disseram:

“Ai, Pêdru… Se tivéris algum problêmâ na escólâ, dizis kés afilhado do Travassos (nome fictício do Rei dos Ciganos) e se precizáris, chama-nos… nós vamos lá partíri os dêntis ós gáijus“

Sempre que tinha um problema com alguém na escola, dizia que era afilhado do Travassos e que os meus “amigos” que me roubavam as romãs estavam sempre prontos para partir os dentes a alguém.

Tenho que admitir… era uma sensação espetacular… sentia-me imbatível e por isso não tinha medo de nada nem de ninguém. Acreditava que se continuasse a haver romãs na quinta dos cavalos, e eu não mudasse de bairro, estaria protegido para sempre.

Recordo-me desta fase da minha vida com regularidade e não tenho dúvidas que foi graças à convivência com os ciganos, durante a infância e a adolescência, que me tornei forte e destemido.

Ainda hoje sou amigo do Rei dos Ciganos… e até tenho o número de telemóvel dele na minha lista de contactos!

Como é que consegui o número do Rei dos Ciganos? Ele teve que me ligar, uma vez, para me desenrascar!

Não… e não foi para ativar o seguro dentário a alguém! ?

Esqueci-me da minha carteira num carro alugado

Certo dia, aluguei um carro numa rent-a-car e, quando o devolvi, esqueci-me da carteira no seu interior.

Só ao final da tarde é que me apercebi que não tinha a carteira comigo, quando queria ir fazer umas compras. Liguei para a rent-a-car e expliquei o que tinha acontecido.

– Pois… esse veículo já voltou a ser alugado. – respondeu-me simpaticamente a responsável pelos alugueres.

Disse-lhe que para além do meu cartão do cidadão e da carta de condução, era nessa carteira que tinha os cartões multibanco e um cartão de crédito e por isso necessitava urgentemente de conseguir reavê-la.

– Um momento, deixe-me apenas confirmar o nome do cliente que alugou a viatura depois de si. – referiu a senhora com uma voz calma, contrastante com o meu tom desesperado.

Até estremeci quando ouvi, do outro lado da linha, dizer:
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– Ai meu Deus… essa viatura foi alugada aos ciganos antes da hora de almoço!

Naquela altura eu já não vivia no Bairro da Cotovia há vários anos e tive aquele pensamento típico de qualquer pessoa:

– A esta hora já me gastaram parte do plafond do cartão de crédito e já me clonaram os outros cartões.

Senti-me voltar atrás no tempo… àquele tempo em que os ciganos me roubavam as romãs. Que jeito me daria ter o número de telefone de um deles!

A responsável pelos alugueres na rent-a-car disse-me:

– Sr. Pedro, aguarde só um momento enquanto eu ligo ao cliente que alugou esta viatura.

Obviamente, do outro lado da linha ninguém lhe atendeu a chamada!

– Hum… não me está atender! – exclamou.

Enquanto ouvia estas palavras, eu só pensava (e acabei por verbalizar):

– Claro que ninguém lhe vai atender o telefone!

– Não desligue, eu vou ligar ao Sr. Travassos. – disse ela.

– Ao Sr. Travassos? O Rei dos Ciganos? – perguntei eu.

– Sim, ele sempre me disse que sou como uma afilhada para ele… e que posso ligar-lhe sempre que necessitar. De certeza que ele sabe onde está o Sr. Telmo, o senhor que alugou essa viatura.

Eu nem estava a acreditar no que me estava a acontecer. Será que ia ser uma das “afilhadas” do Sr. Travassos a salvar-me o dia?

– Sabe, é que às vezes aparecem aqui uns ciganitos a dizer que não querem pagar o aluguer da viatura que deveriam ter entregue no fim de semana… e o Sr. Travassos quer que eu lhe ligue sempre que isso acontecer. Ele detesta que esses desordeiros continuem a alimentar a má fama que as pessoas atribuem ao povo cigano. – explicou-me a suposta “afilhada” do Sr. Travassos.

– Sim, é verdade. Eu vivi no Bairro da Cotovia durante toda a minha infância e não tenho razões de queixa sobre os ciganos… vá… para além de me roubarem as romãs que eu apanhava na quinta dos cavalos! ? – respondi.

O Sr. Travassos atendeu a chamada à suposta “afilhada” e pediu-lhe o meu número de telemóvel para me poder ligar e saber onde é que eu estava. Prometeu à “afilhada” que me iria buscar e que iria recuperar a carteira que tinha ficado esquecida no Nissan Micra cor de laranja (ou de romã… bem madura!) ?
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O Rei dos Ciganos ligou-me
– Tô… é o Pêdrú? – perguntou o Sr. Travassos do outro lado da linha.

– Diz mi onde estás! Eu vou-te buscári… não te preocúpis porque ninguêm vai mexêri na tua cartêra.

Tinha acabado de chegar a casa, depois de ter ido buscar a minha enteada mais nova ao infantário, quando apareceu o Rei dos Ciganos no seu Mercedes. Vinha acompanhado de um alegado “sobrinho” que deveria pesar cerca de 140 kg… a sério, mal cabia no Mercedes quando puxou o banco para a frente para me deixar mais confortável na parte de trás do carro, um gesto que achei bastante cortês.

Lá fomos os quatro até ao bairro onde eles viviam nessa altura. Sim, os quatro porque a minha enteada disse:

– Também quero ir no carro dos Lelos.

Tentei dissuadi-la mas ela insistiu que queria vir “salvar a carteira do Pedrinho“. Eu aceitei. Pedi-lhe apenas para não referir a palavra “Lelo” dentro do carro!

Ela tinha 5 anos nessa altura e por isso, como é óbvio, limitou-se a fazer o que todos fazíamos nessa idade: dizer aquilo que nos pediram para não dizer.

Enquanto o Mercedes se deslocava, com calma, até à entrada do Bairro da Sossegadinha, a Andreia tocou no ombro do alegado “sobrinho” de 140 kg e disse:

– Olha… tu és Lelo?

Senti suores frios a percorrer-me o corpo todo.

Instalou-se um silêncio acutilante e, como que por reflexo, fixei-me na expressão séria com que o Sr. Travassos olhou para o seu grande “sobrinho”.

Desataram os dois a rir à gargalhada e a bater palmas… algo que me lembrei que faziam no Bairro da Cotovia, tanto quando riam como quando choravam.

– É verdádi pikênã… o mê sobrinho é um Lélu! ? – disse o Rei dos Ciganos já com as lágrimas nos olhos de tanto rir.

Entrei no bairro dos ciganos no Mercedes do Rei
Há vários anos que os ciganos tinham deixado o bairro da Cotovia (que tinham outrora ocupado ilegalmente), onde eu vivi dos 6 aos 18 anos, e se tinham mudado para o bairro da Sossegadinha.

Contrariamente às casas pré-fabricadas e com telhados de zinco que dominavam o bairro da Cotovia, no bairro da Sossegadinha existiam várias filas de prédios.

Contudo, alguns pormenores fizeram-me lembrar o bairro da minha infância e adolescência:

Nenhum prédio tinha porta de entrada
Todos os candeeiros de iluminação pública tinham as luzes fundidas
Havia carros abandonados, sem pneus e sem vidros
O parque automóvel era dominado por carrinhas Ford Transit brancas
Havia grupos de 4 ou 5 mulheres a costurar logotipos em polos e t-shirts

Ah… que nostalgia!
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Desde pequeno que me lembro de ver, a partir da janela da cozinha dos meus pais, algumas ciganas a coser os logotipos da Lacoste (e mais tarde da Paul & Shark) nos polos que vendiam na Feira Semanal.

Não sei onde é que conseguiam arranjar aqueles rolos com 5 ou 10 metros de logotipos que elas recortavam e cosiam cuidadosamente nos polos… Um dia, quando eu estava a chegar da escola ao final do dia, chegaram a tentar vender-me polos “Púli Xáki” (que era como elas diziam “Paul & Shark”). Lembro-me de sorrir e de lhes dizer simpaticamente que só usava t-shirts… nunca gostei de polos. ?

Tinha tanta confiança com os ciganos que, numa manhã de verão, em brincadeira com os meus amigos do bairro, perguntei ao Tininho:

– O que é que o teu pai faz? Vende droga?

Ao que ele respondeu:

– Áííí… um cângaru te caia! (forma que eles usavam para nos insultar, desejando que tivéssemos um cancro… um cângaru, como eles diziam!) – Mê páí vende pistólãs… quem vende drógã é u mê tio Albânúú. Ele escôndi-a na casa da mulhéri que cózi a rôupa…

Incrível como conseguíamos saber estas coisas com tanta facilidade! Quem iria imaginar a costureira lá do bairro a esconder a droga ao Albano? ?

Voltei à realidade quando o Rei dos Ciganos parou o Mercedes no meio do bairro da Sossegadinha e perguntou a uma mulher:

– Viste o Telmo?

A mulher disse-lhe que o Telmo tinha ido, com uns primos, para a praia fluvial de Alcarnaxe (conhecida como a praia fluvial onde os ciganos tomavam banho!).

 

O Sr. Travassos parou o Mercedes, abriu o vidro e disse para uma adolescente cigana:

– Chama o Telmo.

Assim, sem “bom dia“, sem “olá“… simplesmente “chama o Telmo“, com a autoridade típica de um Rei.

Em menos de 2 minutos, vi um rapaz a correr desde a praia fluvial até ao local onde o Sr. Travassos tinha parado o Mercedes, onde eu me encontrava com a minha enteada e com o suposto “sobrinho” do Rei.

– Tens alguma cartêra no tê cárrú? – perguntou o Rei ao Telmo.

– Tênhú. – respondeu o Telmo com uma voz trémula.

– Áííííí. Porquê que não a entregásti ao Hómi?

– Áíííí, tiúú, eu ia entregar a cartêra quando entregássi o cárrú… – disse o Telmo.

– Dá lá a cartêra ao Hómi, cárá***.

… e foi assim que o Sr. Travassos terminou a conversa com o Telmo, que pelos vistos também era seu sobrinho!

Pouco tempo depois, eu tinha a minha carteira de volta, com todos os cartões e com o dinheiro até ao último cêntimo.

É incrível como a hierarquia cigana funciona

A minha infância, a minha adolescência e este episódio em que recuperei a carteira, marcaram-me.

Sempre que encontro um cigano que conheço, cumprimento-o com um aperto de mão, um abraço e duas palmadinhas nas costas.

Apercebo-me que as pessoas ficam a olhar para mim e pensam algo deste género:

– “Ui… aquele tipo conhece os ciganos?“

Continuam a ser muito desprezados pela sociedade atual… e creio que vão continuar a sê-lo sempre! Mas desde criança que fico fascinado pela forma como eles são um povo unido. Protegem-se e protegem quem eles conhecem.

Nunca esquecerei o que o Sr. Travassos fez por mim naquele dia!

Fonte: blog do Pedro Silva-Santos