O estranho caso de Maria Barros que por 3 décimas não entrou em Medicina e perdeu o seu sonho!

Segundo o artigo da revista Visão Maria Barros não entrou no curso de Medicina por três décimas. A jovem de 18 anos lamenta, numa carta aberta ao Presidente da República, que tenha de perseguir o seu sonho no estrangeiro, quando “há falta de médicos em Portugal”.

“Exmo. Senhor Presidente da República,

Escreve-lhe uma jovem de 18 anos, na hora em que frequenta o “Curso de Preparacion a la Universidad do Instituto Cervantes” e estuda para as provas de biologia, tendo como objetivo o acesso à universidade em Espanha. E fá-lo triste, porque a sua rotina não é a que sonhava e desde sempre sonhou para este ano da sua vida. Há 15 anos, ao arrastar a malinha de médicos de brincar pelo meu quartinho cor-de-rosa, já sonhava e ansiava pelo dia em que poderia começar a estudar para aquele que é o SONHO da minha vida. Mas aqui estou eu, apesar de ter terminado o ensino secundário com média de 17.8 valores, não estou na universidade. E não estou porque me recuso a conformar, a suportar a frustração de estudar algo pelo qual não sinto paixão, escolhendo outro curso só para dizer aos avós que estou na universidade. Por isso vou tentar noutro lado.

Se para muitos a universidade é o passo politicamente correto a dar a seguir ao ensino secundário, para garantir a “futura estabilidade financeira”, e se para alguns é uma obrigação que vem da família, para mim não; o curso de Medicina é e sempre foi o que desejei para a minha vida. Poder ajudar os outros, tratar os que precisam, estudar para garantir que todos têm acesso aos melhores tratamentos é o que vou fazer, seja cá ou no outro lado do mundo. Porque eu quero, porque eu mereço, porque eu preciso. Fá-lo-ei porque sinto que este é o propósito da minha vida, e de forma alguma merece ser desvalorizado ou esquecido por um 16.3 no exame de Físico Química A e por um sistema injusto.


Ser médico é ser-se astuto, perspicaz, responsável, sensato e sensível. Requer destreza, coragem, desembaraço, vontade. Como é que se avalia tudo isto num exame de 2h que incide exclusivamente em conteúdos científicos? Quem é que avalia o lado humano?

Mas eu sou forte e não vou desistir. Esta é apenas a primeira adversidade da minha jornada na “vida dos crescidos”. O que me aperta o coração é ver a minha mãe a tentar segurar aquela lágrima no canto do olho quando soube que por 0.3 valores a bebé com a bata de médica vestida não entrou no curso que quer. O que me dói é ver o meu pai, que sempre se esforçou por me mostrar a sorte que tenho em viver neste país, lindo, limpo, seguro, organizado, e me incentivou a agradecer cada dia por tremenda bênção, questionar a sua justeza. A justeza deste sistema. O que me assusta é ouvir os meus irmãos mais novos, que adoro mais do que tudo no mundo e que ajudo a criar, dizer que estão zangados; quando eles me perguntam “e agora, tens de ir para longe de nós para seres médica? Quanto tempo? Quem é que nos vai levar ao ténis aos sábados e a passear aos domingos de manhã? Quem é que me vai ajudar com os trabalhos de Matemática? Para que é que estudavas tanto, então, Maria?” Aí é que fico assustada.

Por muito difícil que seja, se o meu país não me concede a oportunidade de me formar onde nasci e onde pertenço, vou ter de pertencer a outro lado. Vou ter de agarrar na minha mochila cheia de sonhos e vontades e ideias e dedicação, pendurar-lhe o estetoscópio de plástico amarelo e verde de brincar, e partir. Atrás do meu sonho.

Eu perco, a minha família também. Mas Portugal também perde. E é por isso que lhe escrevo. Em nome de todos nós. Dos que não entraram por 5,4,3,2,1, 0,5 décimas. De todos os que dariam excelentes médicos de que o país precisa. Podíamos ter o melhor Sistema Nacional de Saúde do mundo. Mas há que mudar. Há que quebrar o ciclo vicioso que se baseia exclusivamente em interesses económicos. Não é a minha área mas parece-me senso comum que o que se passa está errado. Há falta de médicos mas as médias de entrada são desumanamente altas, pois as vagas são escassas. Os futuros médicos partem para outros países, como Espanha, formam-se e por lá ficam. E Portugal contrata médicos estrangeiros para colmatar o défice de profissionais que tem? Gasta-se dinheiro em tanta coisa, será assim tão impensável tomar medidas para que se alargue o número de vagas (consequentemente as médias desceriam e todos teriam mais oportunidades), formando mais médicos que adorariam continuar no seu país? Eu sei que formar um médico sai caro. Mas não foi para isso que os meus pais pagaram e pagam os seus impostos? Para que, entre outras coisas, os filhos possam ter a formação que desejam?

Quero um dia poder dizer aos meus filhos que, para além de lindo, organizado e seguro, Portugal é justo! E que merece que lhe dediquemos os nossos sonhos e que todos juntos lutemos para que seja um país melhor. Quero um dia poder perguntar a um dos meus filhos o que quer ser quando for grande e ouvir MÉDICO, sem um aperto no coração. Não me quero ir embora.”

Segundo consta este caso foi em 2016 quando a media de entrada em medicina em Lisboa na primeira fase foi de 178,8 e na segunda fase subiu para 187,8, realmente faltou essa décimas para entrar, porem não há necessidade de se mudar para Espanha, pois na Beira Interior do nosso pais ela entraria no curso que tanto deseja com o ultimo colocado com media de 17,7.

Pior ficam os do Porto com medias acima dos 18 valores e com menos 50 vagas disponíveis.

Porem o caso de Maria Barros não termina aqui, apesar de ser um texto comovente pois a sua vocação era notável, ninguém avalia vocações quando se vai para a universidade.


Mas depois de uma rápida pesquisa pelos candidatos a medicina em Lisboa, Porto e Coimbra, chega-mos à conclusão que a Maria não existe. Não há nenhuma Maria Barros candidata a medicina na 1ª, 2ª ou 3ª fase com média de 17.8. Porquê? Porque a Maria mentiu. É bem mais conveniente dizer “não entrei por 3 décimas” do que “na verdade a minha média era 17.3”. Sim, 17.3. A Maria candidatou-se à UBI nas duas primeiras fases e, veja-se bem, na 1ª até cometeu a loucura de se candidatar à Madeira. E na segunda fase até tinha média de 17.7, o que a torna ligeiramente menos mentirosa.

Curiosamente também mentiu sobre a média de secundário que foi 17.6 na 1ª fase e 18 na 2ª.

Agora sim já se entende o porque de ela ter de ir para Espanha.

Estudasses.

Extinguindo todas as hipóteses, fica no ar uma inconsistência tremenda da história que a Visão apresenta. Quem é Maria Barros? Mentiu? Existe mesmo?Ou é uma boa maneira de criar polémica.

Este texto incendiou as redes sociais com indignação e descontentamento com o sistema de saúde português. “Tanta falta de médicos e tantos jovens que ficam tantos de fora… São os interesses…”, ”Se estamos a contratar estrangeiros, porque mandamos embora os nossos melhores?”, “Só por 3 décimas, onde é que já se viu?”

Claro que não se pode tirar a veracidade do texto, quanto ao facto de serem contratados médicos estrangeiros, quando o sonho de muitos dos estudantes é entrar em medicina, e muito melhor capacitados.

O numero de vagas em Medicina não aumentou desde então.

Medicina já não é o que era.


Engenharia Aeroespacial foi o curso com média mais alta
Com o aumento de vagas nos 15 cursos com médias mais altas poderia esperar-se uma diminuição das médias de acesso. Mas nem a maior oferta fez com que esse cenário se verificasse, sendo poucos os cursos que ficaram com uma média de acesso mais baixa do que a de 2018.

Este ano o curso com média mais elevada foi Engenharia Aeroespacial, do Instituto Superior Técnico, em Lisboa – 18,95 valores. O segundo curso com maior média mora na mesma instituição – Engenharia Física Tecnológica, com 18,88 valores. Aliás, este ano o curso de Medicina, na Universidade do Porto (ICBAS), surge apenas em quinto lugar, com o último aluno a entrar com 18,5 valores. Segundo os dados divulgados este fim de semana pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior houver dois cursos de Medicina a ficar fora dos 20 cursos com médias mais elevados.

No outro lado da tabela há perto de uma dezena de cursos em que o último colocado teve 9,5 valores.

Mas a pergunta importante aqui é deviam aumentar as vagas destes cursos para que os nossos médicos sejam os nossos jovens portugueses? Ou vamos manter estes precedentes e contrata médicos estrangeiros que nem a nossa língua sabem falar?
A história de Maria Barros pode não ser totalmente verdadeira, mas se não foi a ela que aconteceu foi a centenas de outros, médias altas e poucas vagas cria pessoas que não amam o que fazem pois os cursos que sempre sonharam estão a 3 décimas de distancia.

Mas apesar de difícil não é injusto, pois ela teve a mesma oportunidade que os outros estudasse mais. Enfim… ao menos ainda bem que no acesso ao ensino superior não há cunhas e os médicos portugueses são bem melhores que os espanhóis.

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